quarta-feira, 24 de junho de 2015

Você tem medo de escada?

Hoje fazem 14 dias após a estreia e (se não me engano) 25 apresentações, faltando apenas 4 para o fim dessa primeira temporada.

Após a apresentação de hoje parei, sentei, coloquei as mãos no rosto suado de maquiagem olhei pra dentro de mim:

- Não estou bem, tem algo de errado, parece que não saí do lugar, o espetáculo cresceu? O Tom cresceu? Algo cresceu?

Dúvidas e conflitos de um ator que está começando a trilhar um caminho, aprendendo e amadurecendo com os erros e treinando todos os dias pelo menos algum detalhe necessário para que nada saia do lugar.

Mas, com a ajuda da minha amiga Juliana Cordeiro, que faz a personagem Cecília, entendi que o cansaço físico e emocional faz isso com a gente, nos coloca a prova e num paredão enorme  que toca a música "Onde mora o medo?" da nossa outra amiga Karla Izidro.

O cansaço realmente tem sido um desafio, no entanto, sei o tanto que trabalhamos para chegarmos até aqui e o quanto ainda temos que lutar para esse espetáculo crescer cada vez mais. Sei que lá na frente, vamos descobrir um novo brilho, uma nova cor, um novo sol, uma nova nota musical, um novo canto de quem sempre se renova como a primavera, de pessoas que se destinam e se colocam à flor da pele para arriscar suas vidas em função da arte. A arte que reinventa, alimenta, floresce. Ser arte, ser Teatro é a missão mais difícil do mundo e a mais prazerosa, a qual NUNCA devemos (os atores) subestimar, um olhar estranho, um sorriso, uma lágrima de quem pode nos deixar alegres, felizes, com ódio e completamente renovados: o público.

Escrevendo agora, me lembrei de uma coisa que é o sentido de estar aqui, de publicar esse relato e de tornar público os meus sentimentos profundos.
Na primeira apresentação para crianças de uma escola que veio nos prestigiar, uma professora nos perguntou:
- Vocês tem medo de subir nessas escadas?

 (escadas nas quais fazemos diversas acrobacias, inclusive de cabeça pra baixo) eu respondi num tom irônico que SIM, tinha medo

 (mas não, treinamos muitos para fazer isso, estou seguro) e um menininho da plateia, que estava super atento ao espetáculo do início ao fim, com um sorriso iluminado no rosto e em quem me segurei em cena para renovar energias, me respondeu:

- Mas não precisa ter medo, é só subir,

Fiquei sem chão.

Como você pode me dizer uma coisa dessas menino? Porque me desmascarou na frente de toda a sua escola?


Após meu ego ter furado com essa resposta, quando as crianças estavam indo embora, o menino que havia me dado aquela resposta teve algumas dificuldades para levantar e reparei que ele andava com a ajuda de um andador, ele tinha as perninhas todas tortas...
Mais uma vez eu caí, caí nos meus próprios pensamentos mesquinhos, ali, naquela hora, só agradeci aquele menino por ter ido àquela apresentação. Pois através dele, aprendi a dar mais valor no que fazemos, o quanto somos privilegiados por encarnar outras vidas e levar seres tão frágeis como ele para sonhar e acreditar num mundo melhor!

Agora, no final da temporada, percebo a mensagem que ele me deu...

Ter medo pra quê? De quem?

Nós defendemos uma filosofia de vida, defendemos nossa casa, nossa igreja, nossa vida: O Teatro. Nada nos deixará cair. Por isso eu te respondo menino-luz:

- Eu não tenho medo de escada, porque você me levou pra voar ao seu lado.

Com tudo isso, cresci sim, demos mais um passo dessa longa caminhada, no qual o espetáculo ainda terá pela frente mais histórias, mais encontros e emoções. Não resta dúvida de que tudo está aí por algum motivo e as coisas acontecem porque é assim, a vida é bem maluca, mas muita lúcida pra quem consegue entender os mistérios que ela guarda.





Essa música eu gosto bastante, pois me transmite uma renovação.



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